quarta-feira, setembro 01, 2004

Difícil é acordar para dentro...

Acordar sempre parecia a parte mais difícil da vida. O escuro dando lugar a um doloroso clarão ofuscante que a obrigava a cerrar as pálpebras de quando em vez na tentativa de proteger aqueles olhos sensíveis e tão desacostumados a ver depois do sono profundo. No despertar, os tons vibravam, as cores se acentuavam e as emoções afloravam... e a cada segundo absolutamente tudo estava diferente e um pouco menos fora de foco.

O amor sereno agora tomava o lugar da paixão abrasadora acentuando os tons de rosa. A decepção esmaecia e restava sozinha uma saudade cinza e triste e cheia de incertezas. A amizade florescia verde e luxuriante, cada vez mais viva e mais forte, cada vez mais indestrutível. O marrom opaco da dor se dissolvia no lilás dos sonhos, no amarelo-ouro dos desejos, no vermelho da excitante espera por aquilo que nem sabe aocerto se está por vir. O chumbo da derrota, tão aparentemente inexorável, deixava o cenário expulso pelo branco da aceitação e pelo laranja da mudança, da nova chance... As nuances se cruzando, intercalando-se, misturando-se, formando novos sentimentos a partir dos restos que ficaram dos antigos, criando outras tonalidades e remodelando a realidade...

Pare agora!

O caleidoscópio se vai quando a voz chama. Aquela voz que clama que agora é hora de viver, de buscar o real, de esquecer os devaneios e de calar o pedido de socorro da alma. É hora de acordar de verdade... ou talvez seja apenas mais uma chance para morrer mais um pouco ou para dar fim ao arco-íris que mora no lugar secreto e inviolado que repousa, ofuscante, na escuridão do esquecimento... Quem pode saber?

E ela se pergunta de que adianta conhecer todo o mundo se é sempre tão difícil, quase impossível, ir ao interior de si mesma. Antes que tudo se acabasse era preciso se deixar envolver de novo... Antes que tudo acabasse tornar abrir os olhos da alma e vasculhar sem pressa cada recanto. Um exame profundo da próxima vez, ela se prometia. Não mais apenas relances. Amanhã. Ou depois. Depois...