sábado, janeiro 29, 2005

Que diabos é o amor, afinal?

“Mas a dúvida é o preço da pureza

E é inútil ter certeza”

(Humberto Gessinger)

Eu te amo – ela disse, com os olhos semicerrados e os lábios ainda úmidos.

Mas logo depois pensou melhor. Amava mesmo? Talvez não amasse. Talvez tivesse pronunciado aquelas três palavrinhas tão completamente traiçoeiras que desencadeiam uma série de compromissos e sentimentos confusos pelo simples fato de querer ardentemente ser amada por outra pessoa. Como saber exatamente se era amor? Não haviam lhe ensinado em lugar algum, nunca lhe haviam dado uma resposta concreta sobre o assunto quando tinha perguntado, não haviam exibido na TV nenhum programa realmente conclusivo sobre o tema, não havia especialistas sérios com uma tese confiável na ponta da língua. Então não tinha explicação... E ela continuava não sabendo se mentira. Em alguns momentos achava que não. E se, nesses mesmos momentos, a dúvida surgia, ela tratava logo de suprimi-la indignada por uma possibilidade outra ter cruzado seu instante de certeza. Ela queria essa certeza, mas certezas não nascem em árvores atualmente... Moisés havia recebido os mandamentos magicamente, Jesus tinha tido revelações no deserto e ela, nada! Só sabia que tinha falado e agora especulava se deveria realmente ter dito. Porque o amor apavorava mesmo, até os mais destemidos, apesar de nem mesmo os destemidos saberem o que é amor. É como medo do escuro, ou de bicho-papão, ou de mula-sem-cabeça. Muita gente jura que viu e os outros temem por tabela, com medo do desconhecido. E ela ali, pensando nas possibilidades. Gostava de estar com ele, claro. Gostava de tocá-lo, gostava do jeito como seus olhos se encontravam, gostava de como pareciam se entender sem palavras, gostava de pensar nele, gostava dos sorrisos, das caretas, seria capaz de virar a noite ouvindo suas idéias... Mas, amor? Não seria um termo muito forte? Poderia ter dito, por exemplo, que o adorava. Seria tão menos comprometedor... Manteria tudo leve e descontraído. Mas ela fizera o impensável e não podia voltar atrás... Se bem que poderia se fazer de louca, dizer que mudara de idéia ou sugerir, no meio de uma gargalhada, que fizera uma piada para descobrir-lhe a reação. Seria covarde, mas lhe daria tempo para pensar melhor longe dos olhos dele que a espiavam como se tentassem desvendar um enigma. Desses mesmos olhos que agora se suavizavam, dos lábios que agora se distendiam num sorriso e pronunciavam:

– Também te amo...

Quem precisava de certezas, afinal?

Amava sim.

2 Ecos:

At 11:46 PM, Anonymous Anônimo disse...

Olha...há tempos não lia algo tão tocante e que causasse sensações como a que estou sentindo agora...Já me vi nessa situação há alguns anos atrás e simplesmente me teleportei através do pensamento.Eu é que me surpreendo cada vez mais com sua sensibilidade rara...Saibas que te adoro muito e espero que esteja tudo dando certo em sua vida.Beijo no coração,
Orlane

 
At 10:30 AM, Anonymous Anônimo disse...

eu jah lido esse texto aqui mesmo e em algum outro lugar tb..
mas eh incrivel como meus olhos enchem d´água quando o releio...
eh lindo, simples, puro...eh amor, neh?
te amo
nao esquece nunca
e tenha certeza

 

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