sexta-feira, março 11, 2005

SE MORRO...

Se morro sobrevive a mim com tanta força pura
que despertes a fúria do pálido e do frio,
de Sul a Sul levanta teus olhos indeléveis
de sol a sol que soe tua boca cantante.

Não quero que vacilem teu riso nem teus passos,
não quero que pereça minha herança de alegria,
não chames a meu peito, estou ausente.

Vive em minha ausência como numa casa.
É uma casa tão grande a ausência
que passarás nela através dos muros
e penderás os quadros no ar.

É uma casa tão transparente a ausência
que eu sem vida te verei viver
e se sofreres, meu amor,
morrerei outra vez.

[Pablo Neruda]