sábado, setembro 04, 2004

A síndrome do medo

Tenho medo de sentir medo, das pessoas medrosas, de não conseguir desenvolver este texto, de não lhe agradar, de não chegar a lugar algum, da frustração, dos "erros do meu português ruim", de ser rejeitado, de ser comparado a você, afinal! Quem sou eu?
Tenho medo do medo, do medo de te perder, de não gostares de mim, de me desprezares, de não confiares em mim, de me isolar, de não querer te ver, de não conversar, de me esquivar, não te dar chance alguma, de te magoar, de não te aceitar, de não te amar.
Tenho medo de me entregar, de ser acariciado, de ser apalpado, de ser beijado, de ser desejado, de não ser saciado, de que não me agrades, de te agradar, de que queiras mais muito mais.
Tenho medo de subir o batente, de tropeçar, de escorregar, de não me dares a mão, de não me levantar, de perder as forças, de não poder andar, de não descansar, de sair correndo, de não mais parar.
Tenho medo do que os outros pensam, medo de não pensar, de não reparar nos outros, de não me deixar levar, de não ajudar o próximo, de não me preocupar, de não sentir empatia, de não me doar, de não perdoar.
Tenho medo de ser o primeiro, de ser o terceiro, de ficar para trás.
Tenho medo da hierarquia, de ser promovido, de não ser capaz.
Tenho medo da fúria dos homens, dos que pensam em guerras, dos que não procuram a paz.
Tenho medo do recomeço, de que haja tropeços, de que me torne incapaz.
Tenho medo da cura insegura, do câncer, da AIDS, do ANTRAZ.
Tenho medo do medo que você me faz.
Tenho medo da insegurança, das tempestades, redemoinhos, ciclones, tufões, furacões.
Tenho medo da corrupção, de ser eleito, de ser chamado de ladrão.
Tenho medo de ser abordado, de não ser entendido, de ser confundido com um marginal.
Tenho medo de te influenciar, de que não saibas escolher o caminho, de que me culpes por não te guiar.
Tenho medo do escuro, de escalar o muro, de descer na escada, de olhar em profundidade.
Tenho medo de ser ignorado, de ser confundido, de ser idolatrado.
Tenho medo da utopia, de achar impossível, de me arrepender, de não ter tentado.
Tenho medo dos prazeres da carne, do atentado ao pudor, de não ser perdoado.
Tenho medo de ser enganado, de ser censurado, de ser culpado.
Tenho medo da indecisão, do indeferimento, do improcedente, do inconseqüente, do palavrão.
Tenho medo da injustiça, da ignorância que fere, dos massacres em chacinas, dos covardes em ação.
Tenho medo da solidão, da falta de carinhos, das coisas do coração.
Tenho medo do início, do meio, do fim, de ter que recomeçar, de não poder continuar, de não acompanhar, de deixar para trás.
Tenho medo de te prender, de te acorrentar, de não te deixar em paz, de te sufocar.
Tenho medo de ser julgado, de não ser absolvido, de ser torturado, de ser maltratado.
Tenho medo do juízo final, de não estar preparado, de não seguir os irmãos, de não ser salvo.

- Antônio S. Frota -

Ao longo da vida colecionamos tantos medos que acabamos por nem mais saber quais são eles. Mais ou menos como eu sou...