Às três horas da manhã
Ela não conseguia lembrar exatamente quando deixara de amá-lo. Parecia ter acontecido de uma hora para outra, num dia qualquer de fevereiro daquele ano novo. Às três da manhã, provavelmente! Os acontecimentos mais estranhos sempre se dão às três da manhã enquanto você se revira na cama em uma crise de insônia inexplicável. Só recordava de que, num estalo, dera-se conta que não pensava nele há horas, que tinha esquecido de sentir a saudade sufocadora dos últimos dias e que não se importava com o que poderia ter sido feito dele. Que estranho aquilo! Estranho porque já tinha se acostumado com aquele martírio. As pessoas se acostumam com cada coisa, meu Deus! Inacreditável. Mas ela havia mesmo se acostumado e agora teria que aprender a viver sem aquele vazio específico. Passara a vida toda trocando um vazio por outro e já não lhe parecia uma tarefa tão complicada, ou pelo menos não lhe parecera às três horas da manhã de um dia qualquer de fevereiro, executar aquela conversão em especial. Seria tão absolutamente simples! Simples como jamais imaginara que seria, é verdade. Porque realmente o havia amado e criara um “para sempre” em seus sonhos desvairados, como não se permitia sonhar há muito tempo. Quimeras que não se convertiam em realidade pareciam ser seu dom especial. Só que naquele instante estava tão feliz que nem se importava com isso. Era capaz de correr pela rua de alegria depois de uma descoberta de tal magnitude, mas eram três horas da manhã (pelo amor de Deus!) e seus ímpetos teriam que ser refreados até o dia seguinte quando brindaria a todas as pessoas que cruzassem seu caminho com um sorriso luminoso e um bom dia radiante, mesmo depois de uma noite insone. Apesar de uma noite inteira insone. A felicidade é uma coisa estranha, ela descobrira, podia acontecer até quando não se está olhando...
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