O especialista
- E então, doutor, tenho cura? – perguntei aflita.
Ele fez uma cara de quem analisava mais uma última vez a situação para certificar-se de que não se precipitara em suas conclusões e disparou:
- Seu caso é um dos mais difíceis com o qual já me deparei, senhorita. Tantos anos de prática não me prepararam para lidar com ele, eu admito...
- Como assim, doutor??? O senhor está sugerindo que não tenho jeito, que sou um caso perdido???
- Bem, compreenda...
- Não, não e não... Nada de compreender! O senhor ajudou dezenas de pessoas que eu conheço! Por que só EU sou uma tarefa impossível? Não me importo se o senhor usar Super Bonder ou cimento, só quero que conserte, que remende ou o que seja lá o que o senhor faz com os outros!
- Senhorita, espero que tente ser razoável e entender minha posição... Já discutimos exaustivamente sobre o quão grande são as lacerações. É impossível termos sucesso absoluto na cirurgia reparadora. Mesmo que a anatomia fique perfeita, é muito provável que a função fique infinitamente mais prejudicada do que agora.
Hesitei gravemente nesse instante. Como aquilo era possível? Se a função ficasse ainda mais prejudicada eu morreria emocionalmente, é certo. Juntei o pouco de orgulho e amor próprio que me restavam naquele instante e me despedi polidamente. Parei apenas uma única vez, na entrada da clínica para observar as letras douradas que outrora me deram tanta esperança:
DR. FULANO DE TAL, ESPECIALISTA EM CORAÇÕES PARTIDOS.
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