Casos Pitorescos: Episódio II - Da Igreja, da mamãe e de outras coisas
Eu sempre fui muito maleável, o tipo de criança que não era difícil de manobrar, bastante obediente em tudo... ou quase tudo! Só uma coisa me aborrecia até os ossos: nossa ida semanal à Igreja. Não adiantava espernear, chorar, pedir pelamordedeus. Tinha que ir. Ponto. A ditadora dessa vez, no caso, era minha mãe. Cem por cento inflexível. E eu respondia à altura. Ficava calada na missa, sentava quando era pra ajoelhar, ficava em pé quando era pra sentar, ajoelhava quando era pra ficar de pé e daí por diante. E mamãe esfumaçava e prometia aniquilação total com os olhos (o que eu fingia que não via, claro). Quando terminava a missa ela vinha por dois quarteirões inteiros (é, a gente mora quase do lado da igreja) gritando que eu a fazia pecar, que isso não tava certo, que era muito desgosto, como podia aquilo, que eu era mal-agradecida etc etc etc. E eu lá, fingindo que não sentia culpa nenhuma quando na verdade me remoía por dentro, mas não dava o braço a torcer. Só olhava pra ela no fim do sermão materno e perguntava: "Então por que você não me deixa em casa no domingo que vem?". Ela bufava e dizia que nem morta!!! Era a guerra nossa de todo domingo.
Quando eu fiz quatorze anos tudo mudou. Um dia ela chegou e disse que não obrigava mais, que eu já era grande o suficiente para decidir o que queria da vida e que um dia (não muito longe dali, ela esperava) eu ia perceber e sentir falta de Deus e iria por livre e espontânea vontade para seus braços acolhedores. Bom, isso ainda não aconteceu. Ou pelo menos não da forma como ela gostaria. Igreja, atualmente, só em casamentos e missas de sétimo dia. Por que? Por que???
Eu não saberia explicar as origens de tudo, mas em certo ponto da minha vida eu percebi que não gostava da idéia de Deus que está em voga por aí e que minha fé é incerta e muito volúvel. Não tenho vergonha de colocar aqui que não sei de absolutamente nada e que não é todo dia que eu procuro as respostas. Só penso uma coisa: se Deus existe mesmo, não segue regras tão rígidas nem vê tanto pecado em tudo. E se eu estiver errada, creio pelo menos que ele é suficientemente clemente para perdoar minha ignorância.
Conheço e aprovo o papel que a fé tem na vida humana. Nós precisamos disso. Gosto ainda mais das mensagens positivas da filosofia de cada uma das religiões. Não que eu não tema alguns aspectos como a dominação da massa e a alienação social de algumas. Essas falhas são do homem e não do mundo espiritual. Tenho pavor ao Deus do Velho Testamento que castiga, pune e exige sacrifícios. Mas sou fã de Jesus. O CARA. Era tão absolutamente extraordinário, que teve que morrer por isso. Não sei se aquele lance de ser filho do Senhor era delírio de grandeza ou não, há espaço para discussão. Entretanto ele deixou na Terra um conceito singular de que cada um de nós é único e especial, que podemos mudar esse mundo com cada pequeno ato e que, apesar de nossa singularidade, somos iguais aos olhos do Universo, do Cosmos, do Infinito, de Deus.
Viram o poder da mensagem? É nisso que eu acredito, numa única palavra que resume isso tudo: AMOR. E embora mamãe não saiba, foi ela a primeira pessoa a me fazer ver isso porque ninguém no mundo me ama como ela, e jamais vai amar. Ela me levava pra casa de Deus para aprender o que ela há muito já ensinava sem palavras. E é nisso que eu vou sempre crer, enquanto houver vida em mim.
1 Ecos:
Só posso dizer que concordo plenamente com vc!
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