Sempre me considerei uma pessoa relativamente sociável. Essa característica talvez seja fruto direto do fato de eu ter mudado infinitas vezes de colégio (quase uma estratégia de sobrevivência na selva) a ponto de propor em casa um ultimatum de que onde começasse o primeiro ano do ensino médio seria a última escola que eu freqüentaria. E assim foi. Eu sentia uma necessidade enorme de iniciar o ano conhecendo pelo menos uma pessoa da minha sala, de ter alguma raiz, qualquer coisa. Hoje vejo que só muito depois eu reconheceria realmente o significado do que é “ter raízes” já que na maior parte do tempo eu juntava pilhas de conhecidos e bem poucos amigos. Um mau hábito tão arraigado que havia se convertido em reflexo, eu admito.
Parecia normal não deixar as pessoas fazerem mais do que arranhar a minha casca protetora, era mais simples ser próxima dos outros mantendo um braço de distância. Eu participo da sua vida, conheço os seus problemas, enxugo suas lágrimas, mas não me peça para mostrar as minhas cicatrizes, não ultrapasse os limites! Isso sempre foi a minha cara. E por isso perdi tantas pessoas especiais e deixei que escapassem vários amigos-pra-vida-toda em potencial.
Odeio alimentar arrependimentos, só que alguns são inevitáveis como respirar: os amigos que eu não cultivei. Flashes de tempos felizes impressos eternamente na minha memória, uma saudade infinita, uma vontade de voltar atrás mesmo sabendo não ser possível, tendo consciência de que hoje os ventos que sopram são diferentes e as velas de nossos barcos nos levarão em direções diametralmente opostas.
Há alguns poucos anos, recebi uma lição valiosa de uma pequena grande ámiga. Ela me ensinou a dizer EU TE AMO. E a verdade é que amor é muito mais simples do que a maioria das pessoas vê ou imagina. Sou capaz de amar com intensidades diferentes, por períodos variáveis de tempo e isso não descaracteriza o sentimento. Outro dia vinha na rua e uma velhinha sorriu para mim e, por um instante no tempo, eu a amei por me fazer ter vontade de retribuir. Então como não amar as pessoas com as quais aprendi a perder parte de mim para receber mil vezes mais, aquelas que foram fortes e pacientes o suficiente para galgar os degraus da torre onde escondo quem realmente sou, as que suportam meu mau-humor, minha tristeza, minhas desilusões, meu cansaço e ainda assim permanecem ao meu lado num atestado silencioso de que me amam infinitamente? A esses eu dedico meu amor perene, imorredouro. E lhes declaro tantas vezes quantas forem possíveis esse amor para que jamais eles também se tornem uma saudade sem jeito, um arrependimento feroz.
Como viver sem o humor ferino, as tiradas inteligentes, a paciência de escutar e a sabedoria de aconselhar do Tele? Sem o pavio curto, a família maravilhosa e o carinho imensurável da Caru? Sem a vulnerabilidade, as conversas non sense e a loucura sábia da Moni? Sem a gentileza, a simplicidade e o espírito mutante do Lins? Sem a vaidade, a bondade, a hospitalidade e as flores de papel do PH? Sem a sensibilidade, a curiosidade, a perspicácia e o coração mole do JP? Sem o bom senso, a capacidade de raciocínio rápido e o abraço acolhedor do tio Uli? Sem as piadas, as cartinhas, os desenhos e a gentileza do Thilk? Sem as conversas na praia, os mails de saudade e o idealismo do Gustavo? Sem o sorriso de criança, a bondade infinita e a fé da Márcia? Sem o sorriso-sol da Rebeca, sem o jeitinho meio tímido do BD, sem a companhia de todo dia da Régia, sem a elegância e a doçura da Lara, sem aquele olhar traquina que de vez em quando surpreendo na Carol Veras, sem a loucura de Dél´s, sem o jeitinho meigo do Felipe, sem a delicadeza sem limites da Viviany, sem as gargalhadas da Sara, sem o jeito estabanado da Rafaela, sem a ponderação da Carol Nóbrega, sem as opiniões incisivas do Nagib, sem o espírito lutador da Veruschka, sem tudo aquilo que eu amo em cada um dos meus amigos (os aqui citados e os não citados também)? Como conseguir viver sem vocês??? Espero nunca ter que descobrir.
Amo a todos.
Para sempre.
E ainda além do sempre.
Aonde eu for.