sábado, outubro 29, 2005

Uma pequena morte

Tem saudade doída que só de pensar já machuca e que de vez em quando dá aquela fisgada te deixando cinco segundos sem ar e com sensação de que nada vai estar certo de novo. Mas aí de repente tornam a apertar o play e o mundo retoma seu curso sem nem se dar conta de que você está numa rotação diferente, mais lenta, mais dolorida, sendo deixado para trás.

Eu já tive, e de vez em quando ainda tenho, saudade assim. Amigos perdidos são a maior fonte delas, no geral. São o saber de que nada vai ser nem um esboço do que já foi e que você não tem forças nem esperanças para lutar outra vez pelas promessas de para sempre um dia ditas.

Tenho pavor dessa saudade aí. Mas ela tá aqui, escondida, esperando para aflorar. E ela aflora. E como... Nunca mais ver pode muito bem ser comparado a uma pequena morte... E quem não chora ao dizer adeus?

sexta-feira, outubro 28, 2005

Ai se sêsse

[Zé da Luz]

Se um dia nóis se gostasse
Se um dia nóis se queresse
Se nóis dois se empareasse
Se juntim nóis dois vivesse
Se juntim nóis dois morasse
Se juntim nóis dois drumisse
Se juntim nóis dois morresse
Se pro céu nóis assubisse
Mas porém se acontecesse de São Pedro não abrisse a porta do céu e fosse te dizer qualquer tolice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvêiz que nóis dois ficasse
Tarvêiz que nóis dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse

- Cordel Do Fogo Encantado-

domingo, outubro 23, 2005

Nossa democracia compulsória de cada dia

Apolitizada. Esse sempre foi o termo a melhor me definir. Eu não tenho orgulho, no entanto sou assim mesmo, fazer o quê. Acho que perdi o fio da meada, só. Mas atualmente tenho me preocupado com o tamanho da indignação que vem crescendo dentro de mim. Posso dizer que estou estupefata comigo mesma e meus sentimentos fortes em relação a esse referendo. Não queridos, não se preocupem pois não vou falar se voto SIM ou NÃO, nem nada do gênero. Sei que todos já receberam mails em demasia e já formaram (ou não) uma opinião última. Porém eu gostaria de divagar sobre os fatos que rodeiam isso tudo.

Por que nós temos, com tantos problemas maiores e mais urgentes, gastar milhares de milhões para decidir algo que não vai alterar em nada a trajetória desse país? Vocês conhecem aquela brincadeira que termina com uma musiquinha chata assim: "Esse problema não tem solução, eu só queria riscar sua mão". É isso que está acontecendo agora no Brasil. Estão riscando nossas mãos, nossa cara, nos fazendo de palhaços às custas do nosso rico dinheirinho público que para nada mais serve além de patrocinar disparates e encher o bolso desses corruptos.

Aí entra minha indignação ao ver debates acirrados sobre esse referendo. Pessoas se esgoelando defendendo sua posição como se disso dependesse sua vida (bem, acho que algumas pessoas acreditam que estão defendendo sua vida mesmo, não?) me fazem ter vontade de gritar "Ei, você não vê que é isso que ELES querem que a gente faça? Que desviemos nossa atenção do que realmente importa?". Quando falamos do referendo não falamos dessa corrupção monstruosa, da fome que assola a população, dos impostos abusivos, da escola pública falida, da saúde agonizante.

E hoje, como apoteose, vamos todos às urnas defender nossa bela democracia COMPULSÓRIA. Pffff! Típico, típico. Não vamos trabalhar para mudar as estruturas. Melhor e mais fácil criar essas medidas tapa-buraco! Enquanto não houver nesse país um esboço de igualdade social não vai ser uma arma a mais ou a menos que vai me fazer dormir melhor à noite. Deixo aqui registrados meus pêsames ao Brasil.

terça-feira, outubro 18, 2005

Possibilidade...



Turandot?

sábado, outubro 15, 2005

A boa do dia

Estava lá eu correndo (ou fingindo) na Beira Mar quando passa por mim um cara gordinho (também tentando correr) com uma camisa com a seguinte inscrição:

"BODY UNDER CONSTRUCTION"

Adorei!!! Isso é que é coragem! Parabéns, querido gordinho! Você se garantiu.

quinta-feira, outubro 06, 2005

É IJF! Aha! Uhu! ;)



Saideira do primeiro mês no IJF... Quase gostando da Cirurgia, eu! Quem diria!!! Pessoas legais tornam tudo mais leve. Um bjo, queridos. Continuamos na luta!!!

Casos Pitorescos: Episódio II - Da Igreja, da mamãe e de outras coisas

Eu sempre fui muito maleável, o tipo de criança que não era difícil de manobrar, bastante obediente em tudo... ou quase tudo! Só uma coisa me aborrecia até os ossos: nossa ida semanal à Igreja. Não adiantava espernear, chorar, pedir pelamordedeus. Tinha que ir. Ponto. A ditadora dessa vez, no caso, era minha mãe. Cem por cento inflexível. E eu respondia à altura. Ficava calada na missa, sentava quando era pra ajoelhar, ficava em pé quando era pra sentar, ajoelhava quando era pra ficar de pé e daí por diante. E mamãe esfumaçava e prometia aniquilação total com os olhos (o que eu fingia que não via, claro). Quando terminava a missa ela vinha por dois quarteirões inteiros (é, a gente mora quase do lado da igreja) gritando que eu a fazia pecar, que isso não tava certo, que era muito desgosto, como podia aquilo, que eu era mal-agradecida etc etc etc. E eu lá, fingindo que não sentia culpa nenhuma quando na verdade me remoía por dentro, mas não dava o braço a torcer. Só olhava pra ela no fim do sermão materno e perguntava: "Então por que você não me deixa em casa no domingo que vem?". Ela bufava e dizia que nem morta!!! Era a guerra nossa de todo domingo.

Quando eu fiz quatorze anos tudo mudou. Um dia ela chegou e disse que não obrigava mais, que eu já era grande o suficiente para decidir o que queria da vida e que um dia (não muito longe dali, ela esperava) eu ia perceber e sentir falta de Deus e iria por livre e espontânea vontade para seus braços acolhedores. Bom, isso ainda não aconteceu. Ou pelo menos não da forma como ela gostaria. Igreja, atualmente, só em casamentos e missas de sétimo dia. Por que? Por que???

Eu não saberia explicar as origens de tudo, mas em certo ponto da minha vida eu percebi que não gostava da idéia de Deus que está em voga por aí e que minha fé é incerta e muito volúvel. Não tenho vergonha de colocar aqui que não sei de absolutamente nada e que não é todo dia que eu procuro as respostas. Só penso uma coisa: se Deus existe mesmo, não segue regras tão rígidas nem vê tanto pecado em tudo. E se eu estiver errada, creio pelo menos que ele é suficientemente clemente para perdoar minha ignorância.

Conheço e aprovo o papel que a fé tem na vida humana. Nós precisamos disso. Gosto ainda mais das mensagens positivas da filosofia de cada uma das religiões. Não que eu não tema alguns aspectos como a dominação da massa e a alienação social de algumas. Essas falhas são do homem e não do mundo espiritual. Tenho pavor ao Deus do Velho Testamento que castiga, pune e exige sacrifícios. Mas sou fã de Jesus. O CARA. Era tão absolutamente extraordinário, que teve que morrer por isso. Não sei se aquele lance de ser filho do Senhor era delírio de grandeza ou não, há espaço para discussão. Entretanto ele deixou na Terra um conceito singular de que cada um de nós é único e especial, que podemos mudar esse mundo com cada pequeno ato e que, apesar de nossa singularidade, somos iguais aos olhos do Universo, do Cosmos, do Infinito, de Deus.

Viram o poder da mensagem? É nisso que eu acredito, numa única palavra que resume isso tudo: AMOR. E embora mamãe não saiba, foi ela a primeira pessoa a me fazer ver isso porque ninguém no mundo me ama como ela, e jamais vai amar. Ela me levava pra casa de Deus para aprender o que ela há muito já ensinava sem palavras. E é nisso que eu vou sempre crer, enquanto houver vida em mim.

quarta-feira, outubro 05, 2005

Casos Pitorescos: Episódio I - Da pintura, do papai e de outras coisas

Mal consigo lembrar quando tinha sido a última vez que tínhamos pintado a casa. Tava de dar pena, coitada... Mas esse ano papai se animou e decidiu fazer essa caridade. Acho que fez isso só porque a gente parou de pedir, óbvio.

Meu pai é um ser estranho. Não necessariamente no mau sentido da coisa. Só diferente mesmo. Meio do contra às vezes. Se você insiste, ele nega. Se você precisa rápido, ele desacelera. Se o erro foi pequeno, ele berra. Se foi grande, ele mal comenta. Deu pra entender? Eu espero que não, porque convivo com ele há mais de 24 anos e ainda não saquei a lógica direito. Talvez porque não haja lógica, afinal.

Certo, então decidiu-se pintar a casa. Vamos escolher as cores!!!! Ou não. Quem escolhe esse detalhe insignificante é o cara que não escolhe nem as próprias cuecas: ELE! O papai. E acredite em mim, ele tem gostos estranhos também no que se refere a tintas para fachadas de casas. Digamos que leva-se um tempo para se acostumar com as cores e que fica muito mais fácil localizar minha casa (até no escuro!) depois da pintura.

Fácil tomar a decisão, difícil é suportar a obra em si. Começam os pintores no meio da casa, a poeira, a bagunça, as refeições de improviso... tudo para deixar qualquer pessoa relativamente sã louca. Se não fosse a mamãe que é uma leoa nessa coisa de limpeza e deixava a casa semi-habitável (ou pelo menos dormível) à noite, não sei o que teria sido de nós. Sem contar com a falta de privacidade intrínseca a todo o processo.

Eis um exemplo: Fortaleza, ... de setembro de 2005, 6:00h. Levantei de camisola. Só levantei mesmo, sem acordar. Tropecei em direção à cozinha cega de sono como em quase todos os dias (na verdade tropecei um pouco mais que o habitual porque por algum motivo, que a minha consciência embotada ainda não conseguia compreender àquela hora, os móveis estavam em novos lugares) e abri a geladeira. PAF! (despertar instantâneo e confuso nesse momento). "Ai, meu Deus! Desculpa, seu Luís, não queria derrubar o senhor da escada! O senhor tá bem???" (pausa para a constatação vergonhosa de que eu estava de camisola na frente do pintor) "Ehhh, olha desculpaí, viu? Licença! Eu... tchau" (fuga rápida pela direita, não sem antes tropeçar na cadeira mais próxima e machucar o dedinho do pé, claro!). Mais um causo de pintor.

PS.: A vergonha é o melhor anestésico que existe!

O fato é que dentre mortos e feridos, salvaram-se todos. Mesmo que não tenha me restado muito orgulho, ficaram as paredes como que novas, adoráveis e a fachada cheguei de sempre. Não se pode ter tudo, não é? ;)