“Mas a dúvida é o preço da pureza
E é inútil ter certeza”
(Humberto Gessinger)
– Eu te amo – ela disse, com os olhos semicerrados e os lábios ainda úmidos.
Mas logo depois pensou melhor. Amava mesmo? Talvez não amasse. Talvez tivesse pronunciado aquelas três palavrinhas tão completamente traiçoeiras que desencadeiam uma série de compromissos e sentimentos confusos pelo simples fato de querer ardentemente ser amada por outra pessoa. Como saber exatamente se era amor? Não haviam lhe ensinado em lugar algum, nunca lhe haviam dado uma resposta concreta sobre o assunto quando tinha perguntado, não haviam exibido na TV nenhum programa realmente conclusivo sobre o tema, não havia especialistas sérios com uma tese confiável na ponta da língua. Então não tinha explicação... E ela continuava não sabendo se mentira. Em alguns momentos achava que não. E se, nesses mesmos momentos, a dúvida surgia, ela tratava logo de suprimi-la indignada por uma possibilidade outra ter cruzado seu instante de certeza. Ela queria essa certeza, mas certezas não nascem em árvores atualmente... Moisés havia recebido os mandamentos magicamente, Jesus tinha tido revelações no deserto e ela, nada! Só sabia que tinha falado e agora especulava se deveria realmente ter dito. Porque o amor apavorava mesmo, até os mais destemidos, apesar de nem mesmo os destemidos saberem o que é amor. É como medo do escuro, ou de bicho-papão, ou de mula-sem-cabeça. Muita gente jura que viu e os outros temem por tabela, com medo do desconhecido. E ela ali, pensando nas possibilidades. Gostava de estar com ele, claro. Gostava de tocá-lo, gostava do jeito como seus olhos se encontravam, gostava de como pareciam se entender sem palavras, gostava de pensar nele, gostava dos sorrisos, das caretas, seria capaz de virar a noite ouvindo suas idéias... Mas, amor? Não seria um termo muito forte? Poderia ter dito, por exemplo, que o adorava. Seria tão menos comprometedor... Manteria tudo leve e descontraído. Mas ela fizera o impensável e não podia voltar atrás... Se bem que poderia se fazer de louca, dizer que mudara de idéia ou sugerir, no meio de uma gargalhada, que fizera uma piada para descobrir-lhe a reação. Seria covarde, mas lhe daria tempo para pensar melhor longe dos olhos dele que a espiavam como se tentassem desvendar um enigma. Desses mesmos olhos que agora se suavizavam, dos lábios que agora se distendiam num sorriso e pronunciavam:
– Também te amo...
Quem precisava de certezas, afinal?
Amava sim.
É de se esperar que depois de um tempo sejamos capazes de perceber quando um desastre iminente se aproxima... Claro que não é aquela coisa de cão perdigueiro que fareja coisas no ar, mas deveria chegar muito perto disso. Esse conceito se aplica, por exemplo, a erros recorrentes. Você sabe que vai dar errado, até porque já deu errado outras vezes, mas fica naquela de “dessa vez vai ser diferente”. Só que não é. E aí se dá a desgraça. Sorte que quando isso acontece de novo você se reergue mais rápido e a se recupera do baque sem tanto alarde quanto da última vez.
Não existe uma pessoa no Universo inteiro que nos engane melhor que nós mesmos. É um fato. Acreditamos exatamente naquilo que queremos acreditar, transformamos discursos corriqueiros no que desejamos ouvir, interpretamos entrelinhas que não existem a nosso bel prazer e fazemos o diabo para acelerar ainda mais a chegada do tal do desastre iminente. Somos, infelizmente, humanos em demasia... Eu sou um bom exemplo disso e imagino que você que está perdendo seu tempo nessas linhas toscas também possa ser. Não tem quem escape, embora alguns sejam mais destrutivos que outros, obviamente. Gosto de pensar que pelo menos nesse grupo em especial não me enquadro, definitivamente. Autoflagelação, autocomiseração e autodestruição não se encaixam no meu dicionário de mulher-não-tão-madura-assim-mas-determinada-que-procura-seu-caminho-nesse-mundo-louco... Erro sim, mas paro de aplicar as chicotadas psicológicas tão logo consiga, enxugo as porcarias das lágrimas e vou em frente, com direito, claro, a algumas recaídas esporádicas progressivamente mais espaçadas e cada vez mais rápidas. A vida é muita curta pra tanta dor e desespero desnecessários e descobri que vim ao planeta Terra para viver essa vida. Sobreviver apenas não faz mais parte do que eu considero aceitável.
Não quero mais acordar e olhar o dia como se não fosse nada, como se não houvesse um milagre embutido em tudo. Não quero me contentar com meio-sorrisos e sentimentos neutros. Não quero bom-dias sem paixão implícita e sem expectativa no ar. Não quero esperar mais um dia, mais uma vida. Não quero achar o sofrimento natural e a dor uma experiência a ser vivida e revivida repetidamente. Não quero me contentar com migalhas sem gosto e cheiro de mentira embolorada. Não quero um trabalho chato que me encha de dinheiro suficiente para que eu possa assistir aos outros viverem do meu camarote VIP, sem participar. Não quero experimentar a “solidão que dói” por mais tempo que o estritamente necessário. Não quero deixar a infelicidade fazer morada em mim. Não quero saudades que nunca acabam nem sensação de inadequação. Não quero satisfação em doses homeopáticas. Não quero a mediocridade de não querer nada.
Quero novos erros. Os meus já estão gastos de tanto uso e esses e, como disse no começo, já os reconheço de longa data e prevejo seus desfechos. Quero também alguns acertos, só para ter a impressão, de vez em quando, de que estou no caminho certo ou de que é hora de tentar um outro caminho. Quero quente. Quero frio. Só não quero morno, morto por dentro. É mais ou menos isso que eu desejo... Desiderata.
São poucos os professores, principalmente na faculdade de Medicina, que levam o aluno a realmente refletir sobre a vida e não apenas se limitam a mostrarem-se maravilhosos e espetaculares a nossos olhos. Tive um assim ainda no primeiro semestre e até hoje lembro muito bem de como ele nos tratava (realmente de igual para igual) e de como respeitava nossas opiniões, das poesias que nos trazia, das perguntas que nos faziam refletir sobre a vida.
Era uma vez uma garota que vivia numa terra distante, cheia de luz, e habitava uma torre tão alta que chegava a tocar as nuvens. Há anos morava naquele lugar e sentia-se confortável porque havia sempre pessoas que a amavam a seu redor fazendo-a esquecer as dores do mundo que ela havia deixado para trás. Era um mundo temido, cheio de sentimentos que a amedrontavam. Por isso ela se refugiou na sua própria solidão e encontrou um certo tipo de felicidade naquele universo limitado. Entretanto a torre possuía janelas e, um dia, ao longe, ela avistou uma ilusão tão perfeita que parecia ser real. E essa ilusão a encantou e a fez esquecer todas as cicatrizes de seu coração ferido. Ela, antes tão medrosa, jogou para trás seus temores e desceu correndo as escadas, sem tomar cuidado com nada, sem proteger o coração. Chegou sem fôlego e encontrou à entrada da torre o fim da quimera que antes lhe parecia perfeita. Ao invés de um príncipe, haviam deixado em sua soleira uma promessa longínqua, uma saudade infinita e nada mais. Agora ela observa a escadaria sem saber o que fazer, com os olhos secos e o coração pesado. Subir seria penoso. Ficar seria doloroso. Onde havia se escondido o “e foram felizes para sempre”? Como saber em que direção dar o primeiro passo?
Hoje foi um dia estranhamente ruim. Estou me sentindo frágil e deprimida. Como se qualquer coisa me pudesse fazer chorar. Como se nada me pudesse fazer rir. Como se nada demais fosse o fim do mundo. Como se o dia fosse infinito e as horas, 24 pedaços de eternidade. Como se meu coração estivesse mergulhado em solidão, prestes a se afogar. E o mais estranho é que hoje acordei quase feliz. É... definitivamente o planeta dá muitas voltas e às vezes gira tão rápido que derruba a gente com a eficiência de uma rasteira. A escadaria parece cada vez mais atraente... Assim que eu me recompuser vou subir cada um daqueles degraus de novo, assim que a vida parecer pesar um pouco menos.
Não acredito que Deus gaste muito do Seu tempo com pequenos problemas dos seres humanos... Em algumas questões tenho certeza de que temos autonomia completa. Mas hoje, se eu pudesse fazer um pedido, um só, pediria a Ele que cerrasse meus olhos num sono profundo essa noite e me fizesse parar de pensar só um pouquinho porque já estou cansada, muito cansada. Imploraria que em sonho escondesse meu coração numa torre incrivelmente alta, inalcançável, indelével, e o deixasse lá repousar sem sentir nada. E por isso, e apenas isso, essa noite, eu venderia minha alma...
Talvez algumas dádivas simplesmente não sejam para algumas pessoas, talvez algumas recompensas sejam reservadas para poucos... Mas mesmo que não sejamos nós os premiados da vez, jamais desaparece a sensação de que sempre haverá um outro sorteio e que o destino pode estar pensando em escolher-nos. Não sei... As possibilidades são tantas, mas tantas, que é impossível prever. Mas ainda assim é melhor acreditar. Jamais gostei do tempo em que nada me parecia mágico. Hoje passou, já é ontem. Vou esperar o sorteio de amanhã.
Nunca considerei como algo simples não esperar nada da vida e pagar pra ver no que vai dar, sem nenhuma expectativa. E se existir algum medo, deixá-lo para trás. E se houver alguma culpa, fingir que ela nunca aconteceu. Olhar para frente como um caderno em branco esperando os primeiros rabiscos sem querer que no final esses mesmos traços ingênuos se convertam numa poesia de Neruda. Não é fácil...